sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Exposição

O termo exposição está empregado
sentido retórico de écfrase, sem ecgonina.
Os quadros que foram expostos na primeira audição pública dos concertos As Quatro Estações eram de autoria de Jean von Blasenberghe . Deles restam apenas três e já puderam ser vistos: os quadros correspondentes à Primavera e ao Verão pertencem atualmente ao Musée Marmottan, em Paris, tendo sido adquiridos pela família Marmottan bem antes de legarem a casa e a coleção que deram início ao museu, fins do século XIX. Os dois quadros estão em sala especial, no quarto andar do museu, em ambiente sempre sonorizado com os dois concertos respectivos. O quadro correspondente ao Outono pertence ao acervo do MASP, tendo sido adquirido por Chateaubriand com doações de fundos de pensões. Foi visto também, mas se encontra hoje recolhido à reserva, por ter sido danificado em ato de vandalismo na década de 1960, até então não houve interesse ou recursos para restaurar tão importante obra. Por último, o Inverno, consta ter desaparecido em Milão nos anos de 1930, em incêndio mal explicado, no qual não se tem certeza se o quadro queimou completamente ou se foi roubado em circunstâncias ligadas a uma herança conflituosa.
Infelizmente não foi possível obter imagens fotográficas daqueles quadros, o Marmottan não as fornece e o MASP as esconde.
Recorrendo à memória para os descrever, ressaltam-se os aspectos de intertextualidade e as emulações de Vivaldi, principalmente as tratadísticas que muito chamaram atenção.
Baseado na descrição feita e em reproduções de qualidade bem inferior , impossíveis mesmo de serem impressas aqui, as telas de von Blasenberghe foram recriadas por Will Oliveira, a pedido e em estreita colaboração, especialmente para ilustrarem este trabalho e acompanharem as emulações deste estudo como referência iconográfica suplementar.
As ilustrações foram obtidas de um negociante de postais e fotos, à margem do Sena. São duas laudas amarelecidas, sem notas tipográficas, reproduzindo as gravuras de duas Estações em cada. Papel e impressão sugerem que o material date do primeiro quartel do sXX, mas as gravuras originais teriam sido bem anteriores. Não há referência a autoria ou quaisquer textos impressos, exceto o nome de cada estação. Apenas pela memória das imagens de Von Blasenberghe as ilustrações puderam ser identificadas e fornecer pistas para a recriação do Inverno.
Resultou desse pedido que o Programa Iconográfico das Quatro Estações, preconizado para emular uma série de referências anteriores, foi construído em diálogo com ainda mais uma obra de arte, produzida em paralelo, simultaneamente e no mesmo ambiente. Quero apontar esse fato e a consciência das benéficas e amplas contribuições recíprocas na produção para deixar essa questão de lado, abandonar a discussão dessa recíproca contaminação em todos seus aspectos por opção metodológica.
As ilustrações que se seguem
são de Gan Yuan e não têm relação
com as de Blassemberg aludidas
no texto.
Primavera
Von Blasenberghe representou uma primavera lúdica e canora, uma ciranda entre dois casais de adolescentes voltados para o exterior do círculo, de costas uns para os outros, leve e coloridamente trajados. Personagens angelicais ilustram a musicalidade da cena. A remissão é à puerilidade do relacionamento, mas já em presença de certo idílio, platônico ainda, juvenil, mas em processamento.
A cena é campestre, há diversas floradas à vista e os jovens estão cobertos de ornamentos florais: guirlandas, colares e coroas.
O horizonte, em fundo infinito, é luminoso e percorre todo o fundo da tela, permitindo ser relacionado a amplas opções de vida e futuro promissor.
À esquerda, as faces de Jano sobre pedestal remetem ao inverno recém terminado e ao ano que está em seus primórdios.
A presença constante de quatro personagens centrais nas Estações de Blasenberghe permite supor metarreferência à quaternidade das estações, como ciclos e como fazes. Além do quê, na iconografia renascentista (Ripa e sucedâneos), metade dos elementos representativos das estações é homem (inverno e verão) metade mulher (inverno e primavera).
Existe outra Primavera em cuja representação a ciranda se faz presente, a de Nicolas Poussin (c1630 – vide capa desta monografia), mas naquela todos os elementos da roda são femininos e existem mais anjos e elementos alegóricos dentre as nuvens. Outro ponto comum entre os dois autores, na representação da Primavera é a presença de Jânus.
Verão
O verão de Blasenberghe tem também quatro personagens centrais em cena campestre, dois homens e duas mulheres, em situação quase circular, apesar de as mulheres estarem ao chão e os homens, de pé ou recostados. Pode-se especular que os personagens seriam os mesmos do quadro da primavera, apesar de não haver elementos concretos para se estabelecer essa relação.
Aparentemente, entre os personagens à direita existe um idílio formado, a se supor pelas direções dos olhares entrecruzados. A mulher à esquerda, apesar de ter os olhos e quase o rosto cobertos pelo braço, aparenta pelo gesto alguma emoção relacionada a mais alguém do grupo. Pode-se presumir uma insatisfação por rejeição, uma gargalhada longa... Qualquer emoção extremada.
O último elemento é o homem que, em segundo plano, tem o olhar voltado em direção que não permite identificar-lhe a visada entre qual dos dois personagens primeiramente descritos.
Todos os personagens estão despidos, o que sugere calor ambiente e certamente intimidade de alguma espécie entre todos. Apesar do calor presumível e de as vestes estarem pelo chão, formam-se ao fundo nuvens tempestuosas, indicando clima tendente a chuva ou entrevero na relação do grupo.
A vegetação ambiente é de verde profundo, os pontos de fuga, tendentes ao centro, são de maior luminosidade e a paisagem em planos posteriores aos personagens tende ao infinito.
Existem, aqui também, elementos que permitem conexão entre o trabalho de Blasenberghe com os de Poussin e de Boucher. Há indícios de que a mulher recostada à direita tenha sido inspirada na mesma fonte que o elemento feminino central na tela A Primavera, de François BOUCHER (1775), senão Boucher emulou Blasenberghe diretamente.
Outono
A cena pastoril é a de um bacanal; o quarteto se diverte com a dança, a bebida, carnes e com as frutas, enquanto os corpos, assim como os claros e escuros assumem os tons terrosos que são peculiares, a relação entre os personagens aparenta ser a de satisfação, completude, lascividade e até mesmo tédio.
O galhado ainda está coberto de folhas, mas suas cores já acompanham a palheta terrosa da cena, permitindo entrever um céu de contrastes, a tempestade de ventos é claramente representada.
A referência a Poussin é evidente, com vários elementos emulados da Bacanal da National Gallery (Londres), pintada entre 1631 e 1633. Mas a quadratura da composição mantém a linha da série.
L’Inverno
Quase monocromático o inverno. Tons de cinza e pastéis esmaecidos – inclusive porque outras cores não podem ser recuperadas pela imagem da gravura. O mesmo número de personagens, mas um é morto – aparentemente uma mulher, mas até esse dado é algo indefinido. Sempre cena pastoral, mas agora à beira de um lago ou curso d’água, reforçando a frigidez hiemal; um homem excessivamente encarquilhado ao canto, os dois outros personagens velam o corpo que aguarda (Caronte?) em um bote encalhado à margem.
A distribuição da cena é similar aos quadros antecedentes, nova disposição de circularidade sugerindo trama, roteiro entre os protagonistas. Agora a dor é a do fim, do limite. Mas também a dor das memórias.
Os planos são arranjados da mesma forma que nos quadros referentes às estações já descritas, inclusive no fundo de horizonte infinito. A diferença aqui é a quase ausência de vegetação.

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